
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Nós, os evangelistas.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
A vida é para especialistas
Numa das minhas leituras diárias, uma frase me elucidou o pensamento. Dizia nela que a História é, hoje em dia, qual um bicho de sete cabeças para as pessoas. A História (essa com H maiúsculo, hoje tratada por “estudo”) parece distante da nossa realidade, quando, na verdade, É a nossa realidade. Por ser tratada para fins acadêmicos é somente escrita e difundida no meio. Minha mente, então, iniciou uma percepção daquilo que, para mim, sempre fora tão lógico. Descobri que a vida, que me parecia simples, não é nada menos que uma realidade complexa fantasiada para nosso simplório entendimento.
Assim acontece com tudo. Uma obra de arte, por exemplo, já não pode ser admirada pela sua pura beleza, pois sempre leva consigo, bem escondidinha, uma explicação absurdamente abstrusa (feita por, adivinhem?, um especialista na coisa). Elas já não são compreensíveis por si só. Digo também das pessoas. Uma pessoa já não é bonita e simplesmente bonita. Ela deve ter os olhos assim e a boca assado (sem falar na bunda), conforme especialistas em moda, senão, coitadinha. No tempo da minha vó, ficava-se doente por ficar. Tinha-se resfriado. Hoje, tem-se uma novíssima patologia de nome complicadíssimo, que faz o enfermo achar lindo estar doente. Vai ele, então, procurar no Google o que tem. Esse Google, por sinal, tem sido de auxílio significativo num mundo de especialistas, mas não ajuda cem por cento, já que muita coisa eles guardam pra si.
Tento entender essa vida de especialistas. Já que não posso saber o que sabem, serei especialista em especialistas. Todos devemos ser peritos em alguma coisa, é o que parece. Talvez assim seja para que sejamos diferenciados, para sentirmo-nos melhores em alguma coisa, para destacarmo-nos em colóquios (sem que ninguém nos compreenda, é claro). Resultado é que tudo seja tratado como que distante da vida. Parece-me, até, que a própria vida está distante dela mesma. Mas isso, claro, não me atrevo a desvendar. Eles que se encarreguem...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
Entre espantos e encantos, fico com Buenos Aires.
A começar, para viajantes mochileiros com pouco dinheiro no bolso e muita, mais muita!, curiosidade, o glamour encerra (ou talvez nem comece) com as longas jornadas à procura de moedas para pagar o ônibus (velho e lotado). Em Buenos Aires, dá-se um mindinho por moedas. O mais próximo da Europa que um mochileiro pode chegar é pegando um metrô e indo a museus (esses, grátis!). Mas os taxímetros, para nosso deleite efêmero, demoram minutos intermináveis a mudar - embora nos façam sentir brasileiros idiotas.
Buenos Aires é um enigma. O algo de metrópole e a pitada de cidade pequena se percebem na sua mistura de carros (muitos) e motoristas que param na faixa de segurança, de turistas e de porteños atenciosos, de correria nas ruas e de sossego à beira do porto, da noite no boliche e do dia nos parques. As suas Calles Floridas não são assim tão floridas. Na verdade, não passam de calles. Mas um turista bem intencionado há de desculpar tal falha após conhecer os belos bosques que a cidade abriga, esse sim, repletos de flores.
Já os argentinos, contrariando teses, não são antipáticos (exceto quando desavisados lhes pedem moedas...) e não odeiam brasileiros, sobretudo as vovós e os bebês – fato comprovado empiricamente. Alguns odeiam, óquei. Os do sexo masculino – mesmo com seus mullets – são de beleza admirável. O fato de grande parcela não gostar de mulheres é mero detalhe (!). Portenho é tão enigmático e complexo quanto sua cidade. Mas o tempo os torna seres completamente apreciáveis.
Em Buenos Aires dança-se tango na rua e - quem diria! - caminha-se por elas à noite. Ponto turístico é, assim, logo de pronto, um insoso objeto pontiagudo em meio a uma gigantesca avenida, chamado Obelisco. É, no entanto, turismo, também, uma ruela de simplórias casas de madeira pintadas a mil cores (bem mais interessante). Diversão para turistas, sobretudo os mochileiros, é mais que monumentos, é comer alfajores sentado na praça, um programa aconselhável ao bolso e ao prazer.
Não sei explicar mas, após nove dias e muitas experiências, creio que desvendei a esfinge argentina. Buenos Aires é, na verdade, mais que um amor à primeira vista, desses que nos mostram tudo de uma vez e pelos quais se vai perdendo o encanto. Buenos Aires torna-se encantadora. É poesia escondida sob as mais distintas formas, a ser descoberta a cada nova palavra. Mas há que se acostumar o olhar.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Estação BsAs
Com um pomelo em uma mão e um alfajor na outra, eu vi as estações passarem como uma recordação já remota. Sabia que, como tudo o que fosse portenho, o metrô teria um fim. Foram-se passando as estações enquanto esperava um milagre me tirar daquele sufoco, que alguém aparecesse para me dizer que nada aconteceria, que eu poderia ficar o quanto quisesse. Sem milagres e com uma mochila nas costas, desci sob a avenida La Plata, desolada e ameaçando soltar uma lágrima pelo olho direito.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Também me entrego à incoerência
Eu, que de tanto falei e tanto zombei de vãs criaturas que se deliciam ao rolar sobre máquinas tão ruidosamente úteis. Eu, que em minhas viagens me perdi em longos pensamentos no banco ao lado enquanto outro então me conduzia. Eu, que nunca quis acelerar, frear e, menos ainda, mudar a marcha, me rendi. Rendi-me à doce e perigosa diversão automobilística. Eu, que sempre considerei carros armas poluidoras disfarçadas de utilidades modernas.
Passei a divertir-me, assim como faço com quaisquer pequenas novidades, com a boba atividade de acelerar-frear-acelerar. Mesmo que muito rapidamente cansada, minha adrenalina, usualmente a níveis desprezíveis, tem percorrido meu corpo durante as aulas de direção. Desde que, logo na segunda aula, fui batizada na incrível aventura de conduzir aquela arma na maior avenida da cidade, não mais quis cessar. E, então, todas as manhãs, logo após o sol nascer e antes mesmo dele torrar a pele, lá estou com um sorriso no rosto e um volante nas mãos.
Sinto-me, creio, como que poderosa, madura, gente grande. Eu, que sempre achei que tal alegria pertencesse à área infantil do cérebro humano. Breve, eu, tão inocente, inofensiva, inóspita, terei uma arma a meu poder. Breve... se eu passar no exame.
Ao menos, talvez evite encontrar o ingrato motorista de coletivos...
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
Logo eu, que nem me estresso!
Motoristas de ônibus. Eis o que me faz perder a calma quase budista. No caso, foi um. Unzinho só fez de mim a pessoa mais injuriada por poucos e tão longos minutos. Um, somente um, motorista de coletivos porto-alegrenses conseguiu um milagre que nem a escola de samba instalada no fundo do meu prédio consegue.
Assim deu-se o fato. Foi num fim de tarde porto-alegrense (traduz-se: trinta graus Celsius e muito trânsito). Um cristão, após algumas horas de trabalho (a trinta Celsius) e poucas de sono, deseja nada além do que um banho e uma almofada bem fofinha para se recostar. Para tal prêmio de consolação, no entanto, algumas barreiras são necessárias. E então que chegamos ao famigerado ônibus.
Ônibus já são estressantes por si só, graças a sua incrível capacidade de lotar, aos vovôs (que sempre os tomam em horário de pico) e à longa espera por sua chegada. Mas, até aí, minha concentração quase budista me auxilia e me dá forças a repetir o sobe-desce quotidiano. Pois então, depois de vinte anos de passageira e muita história pra contar, cheguei ao cúmulo do absurdo de um motorista, cujo único e simples trabalho é acelerar, frear e, por vezes, sorrir, se recusar aos dois últimos itens. Não creio que alguém não tenha capacidade para fazer os três.
Então, foi assim. O funcionário, de quem reclamei chorosamente (e, eis meu problema: eu quase choro quando reclamo), reclamou por, simplesmente, ter que parar o coletivo, fonte de seu sustento. Outrora já reclamara dele por sua extraordinária incapacidade de pisar no freio, fato que me fez esperar mais alguns longuíssimos minutos por outro mais gentil. E isso se repetiu por três vezes. Na quarta tentativa, quando enfim ele parou, reclamou por tê-lo feito. Seu resmungo fez-me alçar meus decibéis a níveis nunca dantes por mim imaginados perante os quarenta e tantos passageiros.
Pensei, imediatamente, na imbecilidade de quem não dá valor a isso chamado emprego. De certo, não estava feliz o coitado, que trabalha durante o dia todo e ganha dinheiro. Realmente, ele tem direito de reclamar por fazer uma tarefa, quase nada importante no seu trabalho: a de parar. Eu só fiz ajudá-lo, pois. Liguei e - chorosamente - disse à empresa tudo aquilo que, por não ter saído completamente da minha calma budista, não atinei em dizer ao estressado a, pelo visto, estado permanente. O meu, ao menos, é efêmero. Bastou um banho e uma almofada bem fofinha pra me recostar.
E logo eu, que nem me estresso!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Por um ano diferente
A começar, eu juro, juro mesmo, não fazer a listinha de todos os anos. Listinhas aquelas que servem não para um bom ano, mas para um péssimo fim de ano. Listinhas só são úteis para chegarmos à simples conclusão do quanto somos bobos e que jamais cumpriremos metade do que escrevemos. A começar, 2008 não terá listinhas!
Depois de não fazer listinhas, também não farei regime, nem intercâmbio, nem... Na verdade não farei nada, já que nada estará na listinha e, portanto, nada terei de cumprir. Não precisarei ler mais, nem ser mais solidária, nem mais estudiosa, já que tudo será diferente... e não haverá registros.
No ano que adentrará, não vou me apaixonar, já que será um ano diferente de todos. Não vou abraçar, não vou sorrir, nem serei responsável. Também não vou gostar do que faço, do que estudo e deixar pra lá essa coisa de otimismo. Talvez eu também não queira existir, nunca se sabe...
Vou fazer tudo diferente do que até hoje fiz. Tudo de cabeça pra baixo, pra não repetir 2007. Vou dizer pra mim mesma que 2007 não foi um bom ano, e que não alcancei não o da listinha, mas coisas ainda melhores.
Também não farei coisas novas, para que não me arrisque a errar. E não seguirei nada do que disse ou pensei até hoje (eu disse NADA!).
Também não falarei a palavra não. Não não não! Juro que não falarei!
E, repito, não farei essa bobagem de listinha...

"Neste fim de ano, o que desejo a todos é isso, que o passo seja certo, que a palavra seja macia, que o gole valha a pena, que o perdão seja pedido. E concedido." (David Coimbra)
[Atualmente, atribuindo a boa leitura a textos alheios, já que aqui a coisa tá feia... Mas em 2008 prometo escrever melhor. Tá na lista! :D]