Pois bem. Nunca ninguém temeu ou fez qualquer sinal de iminente escarcéu ao ver, pela primeira vez, o sorriso um tanto macabro da nossa amiga. Ela até merecia certa simpatia de nossa parte. Não a ponto de lhe darmos nome (outro costume da família, também nada tradicional), mas era queridíssima por todos. Ou quase todos.
Uma só pessoa demonstrou aversão à presença da nossa protetora. Um amigo de minha mãe sentia-se misteriosamente incomodado quando convidado a sentar no sofá adjacente à escada. Não gostava dela e fazia questão de deixar clara sua antipatia, chegando ao ponto de sugerir que a colocássemos no lixo. Pois o sujeito – ou melhor, o espírito do sujeito - foi descoberto, tempos depois, como de má índole. Um “mau espírito”, portanto. E descobrimos que a carranca fazia jus a sua função, até ser perdida pela grande revolução causada por uma reforma arquitetônica.
Desde então, acredito nessa coisa de energia. Qualquer roupa que eu vista, qualquer lugar a que eu vá, qualquer situação em que me ponha, penso na tal da energia. Mas eu penso nela sobretudo quando conheço pessoas. E nela tenho pensado muito nesses tempos. Porque sempre há gente com aquela perene cara de insatisfação, com aquele ar fastidioso, cuja vida parece estagnada em dias de pé esquerdo.
Digo isso porque, já há algum tempo, conheci uma menina, bonita que é uma coisa. Tem daquelas belezas de dar inveja a outras meninas e de deixar babões os meninos. Mas, embora a beleza em qualquer forma – mesmo a que me cause inveja – me faça um bem danado, a dela me tem sido desagradável ao quadrado. É que, na dita, nunca sequer vi um sorriso, uma palavra boa, um gesto sensível. Ouso dizer que aquela boca que só faz soltar resmungos sequer um dia já sorriu.
“Espírito negativíssimo o dela”, diria a minha mãe. Dessas energias tão negativas que passam pra gente em transmissão direta e sem paradas no caminho. E, como ainda estou tentando descobrir como fazer o processo reverso, do pólo positivo ao negativo, dei uma de carranca e mandei-a embora da minha vidinha de belezas bem mais aparentes.
Mas, se alguém souber onde há, quero outra carranca. Sua eficiência já foi comprovada.
*21/03: Bueno, aí está uma foto da dita. Ela até sorri! Simpatissíssima!





