Bip-bip-biiip
Bip-bip-biiip
As catracas rodam incansáveis e os corpos correm incontroláveis.
Milhares de corpos. Milhares de pés. Milhares de mãos que passam os cartões de acesso ao mundo subterrâneo da cidade. Milhares de bip-bip-bip por dia.
Milhares de sons.
As linhas de metrô da cidade, que na literalidade argentina é chamado Subte, são a reprodução subterrânea da cidade dos contrastes de cores, de gente, de poesia. De barulho. Dos sons fugazes das bocas, dos gritos que tentam superar o som esgaçante dos trilhos do trem.
Mas as linhas coloridas de letras do alfabeto também escrevem composições com mais musicalidade. O subte tem trilha sonora. Os túneis são roteiros abstratos sonorizados por música clássica, rap, andina. Qualquer ritmo em versão argentina.
Nos corredores que ligam estações, os fones saem das orelhas para ouvir a milésima sinfonia do subte. Mais que o respeito, como um chapéu que sai da cabeça, é a admiração a quem dá vida às passagens frias e segundos de sensibilidade aos ouvidos apressados. Os vinte e poucos anos de homens e mulheres carregam violinos, violões e rostos de prazer, embora o palco seja baixo e escuro; o público e o salário, incertos.
Os corpos, quando novamente irracionais – ou racionais? – se esmagam para encontrar vago o assento onde farão viagem.
Dentro do vagão, violão e voz desafinados incomodam e aconchegam. Distraem a monotonia. Para as vidas desafinadas, qualquer nota no compasso certo é boa melodia.
Numa estação, o trem pára e fica. Aguarda mais tempo que o combinado, aproveitando a música que silencia o lugar. Um careca toca guitarra e canta “Stand by Me”, enquanto os olhos esperam, esquecidos da pressa. Dentro e fora do trem, há um público fiel nos poucos segundos dessa união de interesses.
O alarme soa alto e apressa quem sobrou. As portas prestes a fechar desesperam.
Ao pé da escada, como recepção a quem chega, “More than Words” traduz o que ele sente. Assim como os demais que vivem para musicalizar a vida passageira, é mais que palavras que o jovem atirado com o violão quer dizer. Está ali, assim como tantos, com uma tarefa difícil em meio ao caos sonoro.
Ali, a tarefa é mais que o cantar. É o encantar das vidas monótonas, o sensibilizar das vidas mecânicas. Das máquinas que vão e vêm nos imutáveis trilhos do trem.
***
O subte portenho é infinita fonte de observação e inspiração. Logo, promete ser assunto constante para divagação.
Bip-bip-biiip
As catracas rodam incansáveis e os corpos correm incontroláveis.
Milhares de corpos. Milhares de pés. Milhares de mãos que passam os cartões de acesso ao mundo subterrâneo da cidade. Milhares de bip-bip-bip por dia.
Milhares de sons.
As linhas de metrô da cidade, que na literalidade argentina é chamado Subte, são a reprodução subterrânea da cidade dos contrastes de cores, de gente, de poesia. De barulho. Dos sons fugazes das bocas, dos gritos que tentam superar o som esgaçante dos trilhos do trem.
Mas as linhas coloridas de letras do alfabeto também escrevem composições com mais musicalidade. O subte tem trilha sonora. Os túneis são roteiros abstratos sonorizados por música clássica, rap, andina. Qualquer ritmo em versão argentina.
Nos corredores que ligam estações, os fones saem das orelhas para ouvir a milésima sinfonia do subte. Mais que o respeito, como um chapéu que sai da cabeça, é a admiração a quem dá vida às passagens frias e segundos de sensibilidade aos ouvidos apressados. Os vinte e poucos anos de homens e mulheres carregam violinos, violões e rostos de prazer, embora o palco seja baixo e escuro; o público e o salário, incertos.
Os corpos, quando novamente irracionais – ou racionais? – se esmagam para encontrar vago o assento onde farão viagem.
Dentro do vagão, violão e voz desafinados incomodam e aconchegam. Distraem a monotonia. Para as vidas desafinadas, qualquer nota no compasso certo é boa melodia.
Numa estação, o trem pára e fica. Aguarda mais tempo que o combinado, aproveitando a música que silencia o lugar. Um careca toca guitarra e canta “Stand by Me”, enquanto os olhos esperam, esquecidos da pressa. Dentro e fora do trem, há um público fiel nos poucos segundos dessa união de interesses.
O alarme soa alto e apressa quem sobrou. As portas prestes a fechar desesperam.
Ao pé da escada, como recepção a quem chega, “More than Words” traduz o que ele sente. Assim como os demais que vivem para musicalizar a vida passageira, é mais que palavras que o jovem atirado com o violão quer dizer. Está ali, assim como tantos, com uma tarefa difícil em meio ao caos sonoro.
Ali, a tarefa é mais que o cantar. É o encantar das vidas monótonas, o sensibilizar das vidas mecânicas. Das máquinas que vão e vêm nos imutáveis trilhos do trem.
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O subte portenho é infinita fonte de observação e inspiração. Logo, promete ser assunto constante para divagação.