Tenho me estranhado nos últimos tempos. Já não sou o que era. E pior, só sobrou em mim - salvo algumas exceções - aquilo que não queria mais ser. E, pior ainda!, tenho sido tudo quanto criticava, tudo onde prometera nunca chegar. Terrível!... Mas, enfim, tudo isso pra dizer que fui ao cabeleireiro. É, dessas coisas que parecem tão comuns a meninas/mulheres da minha idade. Para mim, como não é difícil perceber logo de cara, qualquer coisa relacionada a cabelos, pés e mãos e coisas sem relação a cérebro e coração, são perda de tempo precioso. Minha vaidade se resume ao cabeleireiro umas três vezes por ano e à manicure umas duas.
De repente, no entanto, vi-me sentada na cadeira do cabeleireiro. Em frente, uma pilha de Caras. Na minha mão, uma Cabelos&Cia, que - juro! - não sei como foi parar ali. Numa tentativa de não parecer cult demais naquele ambiente sem propósito de ser, ignorei o livro na minha bolsa e parti pro “tá na chuva é pra se molhar”. É... ali certamente ninguém me julgaria por ler Cabelos&Cia. Admirei, durante quarenta e cinco minutos, os cabelos e os textos de Cabelos&Cia (só não sei ainda dizer qual me impressionou mais: o cabelo ou o texto). Recomendo, para momentos sabáticos. Para completar minha dose de futilidade diária, abri a Caras “O melhor do Oscar”, para comprovar a tese de uma amiga de que é preciso muito talento para escrever muito sobre nada. Comprovado, minha cara.
Passado o momento de estranha no ninho, cusco em tiroteio, aquela coisa, até que me adaptei. Assustei-me com tal comprovação e me assusto com o que acabei de escrever. “Adaptei-me”? To doida! Há não muito tempo diria “credo!”, mas o momento ocioso com pitadas de cafuné durante duas horas me fizeram, estranhamente, um bem danado. Eu bem que estava precisando fazer nada, além de conversar sem compromisso com um simpático cabeleireiro/a e olhar gente bonita na Caras.
Mas, se uma coisa eu agora sei, mais que o nome de todas as estrelas de Hollywood (e estilistas de) e de “como hidratar seu permanente”, é que ser feminina é uma arte. Ser madame de salão de beleza, então, é difícil pacas. Requer concentração, simpatia em dose antibiótica e muito colóquio frívolo pra trocar durante horas a fio. Sem falar na paciência com aquilo chamado "homem", que nunca repara no resultado do seu esforço.
Assim, como experiência singular, não foi difícil. Durante duas horas, fui feminina com uma classe admirável, não posso negar. Mas pra chegar à feminilidade a nível madame, e em tempo integral, eu precisaria de muito treino, já que talento me falta. Mas, não. Nada de treinos, nada de salão, nada de frescuras. Essa confissão sem vaidades faz parte do processo de cura. Já me sinto melhor, até.





