Vastos não são meus conhecimentos daquilo que é escrito. Digo, não por tantas vezes folheei um livro, não tantas que façam de mim grande entendedora daquilo que trazem. A leitura é, mais ou menos e em alguns casos, proporcional ao tempo de vida, e eu só vivi duas décadas e alguns meses. Sei somente, portanto, dizer do que gosto e do que não. E sei, também, usar a leitura para pensar – ou desenvolver o que já foi pensado.
Uma das coisas que aprendi com livros foi não os julgar pela capa. É uma boa lição de vida, mesmo que você nunca mais olhe para um livro. Na estante da minha mãe, avistava um tal evangelho segundo o protagonista de todos os evangelhos. E, embora ler a Bíblia seja um objetivo da minha vida literária, não me apetecia a idéia de abri-lo. Minha leitura de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” foi o resultado das adoradas aulas de literatura da faculdade.
Ler O Evangelho não é mais difícil que a explicação a ser dada sobre ele quando lhe é perguntado “estás lendo a Bíblia?”. O Evangelho, a começar, embora aspire a ser a releitura da Bíblia, jamais seria aceita como tal. Isso porque Saramago, que se diz evangelista, foi contra alguns preceitos canônicos e, portanto, mundiais.
Ele escreve de forma simples – e muito bem elaborada, diga-se de passagem – a fim de que reconheças a solidez da doutrina em que foste instruído (citando, ironicamente, o evangelho de Lucas). Escreve o que, para muitos, é tão óbvio, mas para o mundo doutrinado em que vivemos não é. O Evangelho insere Jesus numa perspectiva muito mais realista, viabilizando uma versão mais aceitável de sua existência. Já que, num mundo em que já é difícil acreditarmos um nos outros, é difícil acreditarmos numa realidade fantástica – oportuna a alguns interesses – vivida pelo mártir cristão. Difícil, num mundo tão repleto do real.
Muitos de nós – a maioria, eu diria –, da nova geração um pouco mais esclarecida, desacreditam da doutrina que foi pregada/imposta durante mais de dois milênios geração após geração, com possibilidade de escolha quase nula. Muitos de nós foram batizados numa religião (qualquer que seja ela) não porque queriam. Mas, o que faz de muitos de nós diferentes é a possibilidade de levantar o dedo e questionar. Isso porque, talvez, estejamos nascendo cada vez menos condenados à cegueira. E nos perguntamos por que, afinal, enquanto milhares morrem por AIDS, é-se contra o uso de preservativos. Enquanto vidas podem ser salvas, é-se contra a utilização de células-tronco. Enquanto a religião "prega a paz", nada faz para conter guerras em seu nome. E enquanto a fome mata mais do que guerras, o Papa veste-se a fios de ouro (literalmente). E, por que, afinal, essa realidade tão racional deve passar por aprovação espiritual (e de uma só religião).
José Saramago foi um dos primeiros a levantar o dedo publicamente e com ousadia, não somente para questionar, como também para propor uma alternativa. Escritor que sequer fez mais que o ensino médio e provavelmente não sabe tantas línguas quanto o Papa - embora lido em muitos países - , tenta racionalizar um pensamento, faz repensar uma doutrina cada vez menos praticada, colocando-a num patamar bem mais aceitável à razão. Se a razão não aceitar, tê-la usado já é meio caminho nesse caso.

