
Especialista em céu, padre Adelir, assim como qualquer padre, sabe das condições divinas, mas nada das condições do vento. Algumas aulas de vôo aliadas a quarenta e dois anos de fé. Acredita ser isso suficiente para garantir segurança sobre as terras amareladas de Paranaguá, sua cidadezinha paranaense. Um macacão térmico, um capacete, um pára-quedas, um celular, um aparelhinho de orientação sem manual. A medida certa para permitir que os pés saiam do chão. Com o dedo no calendário, o dia foi escolhido pela rotunda lua cheia que estaria no céu. Pretende passar suas horas a contemplar o luar.
É vinte de abril e o famigerado padre da cidade sai minutos após a missa. Com a ajuda dos fiéis coroinhas e de dois ou três fiéis, sai carregado pelos suntuosos balões preenchidos na véspera. Às nove horas da manhã, a cidade desperta sob a névoa sonolenta de cidades pequenas. Em vez do mate quente das manhãs de domingo, os moradores vão se alimentar da fé. Em vez do jornal dominical, vão sugar da fonte da sabedoria do Senhor.
Sob a neblina já mais leve, a razoável multidão de cidades pequenas observa padre Adelir subir aos céus. A alguns metros do chão, ele já não ouve as palmas abafadas pelo som da borracha colorida. E deixa que o vento o leve. Leve como pena. Não lhe importa que os mares que ele agora vê estejam a alguns metros a sudoeste. E que mudem os ventos impiedosos lá de cima. Padre Adelir já é um anjo entre uma espuma alva e inconsistente.
A cinqüenta quilômetros da costa, sob seus pés só há uma rede azul ondulada. Acima da cabeça, um azul liso pincelado pelos tons emborrachados que se perdem aos poucos. Mesmo se quisesse gritar, sua voz já não poderia ser ouvida pelo resgate. O aparelhinho trazido não passa de um figurante sem manual. Mas não quer gritar. Como bom cristão, ele reza. E a reza murmurante do padre Adelir talvez só possa ser ouvida por Deus.