Sempre cuido com os bancos vermelhos. Os apavorantes bancos rubros do ônibus, que piscam como sinaleiras em alerta. São eles destinados a pessoas com deficiência, a vovós e a futuras mamães. Preferenciais, é o que dizem. Já eu, prefiro não os preferir. Por isso, fujo dos bancos vermelhos.
Os bancos
De um lado, uma simpática senhorinha desfrutava de seu lugar à janela sobre o banco azul. Do outro, ninguém sobre os vermelhos. Não hesitei em acomodar-me ao lado na senhorinha, apesar de gostar de janelas. Da universidade à minha casa, são trinta minutos e a maior avenida da cidade a percorrer. Trinta minutos de sufoco sob o sol do meio-dia. A não ser que você consiga um banco azul. Era o que eu pensava.
O grande problema dos bancos vermelhos é precisar ceder o lugar às pessoas a quem eles se destinam. Mas, para pessoas de bom-senso, o adágio vale a todas as cores. O problema é saber a quem ceder o lugar. Que são a deficientes, vovós e gravidas eu sei. Mas quem são eles? É sempre um dilema saber se oferecer o lugar é respeito ao mais velho ou chamar o outro de velho. Mas o dilema, no meu caso, foi muito mais grave. Gravíssimo. Diria até: gravidíssimo!
A barriga, faltando uns oito décimos da avenida.
A menina – devia ter uns vinte e poucos anos – adentrou o ônibus. O coletivo estava lotado e sufocante, e eu ao lado da senhorinha com meus fones. A menina, que, afinal, não era idosa, não deveria ser uma ameaça, não fosse por um ligeiro detalhe. A barriga. Ela tinha uma longa e rotunda barriga, dessas não-identificáveis, dessas que não se sabe se tratar de bebê ou de beber. E ela parou do meu lado. Não tinha cara de grávida, mas tinha barriga.
O dilema, aos sete décimos que me restavam.
Se eu perguntasse à moça se queria sentar, demonstraria minha gentileza. Poderia, no entanto, também demonstrar minha grosseria ou, no mínimo, minha ignorância frente a barrigas. E, em vez de uma constrangida - no caso, eu -, seriam duas - eu e ela. Eu segurava o material de outra menina e, mesmo assim, parecia a mais insensível das criaturas. O ônibus lotava, a barriga me empurrava, e eu rezava. E, quanto mais eu rezava para chegar - ao meu destino ou ao dela -, mais demorava.
Seis décimos
Cheguei à Puc. Em outro dia, aquele seria meu destino. Naquele, porém, não era. Mais gente sobe. Ninguém desce. Comecei a sentir um enjôo, uma tontura, uma coisa parecida com culpa. Parecia-me que todos me olhavam e me condenavam. Condenavam minha bunda preguiçosa que não cedia em favor da barriga enigmática. Mas não havia que fazer. Não poderia ceder, mesmo porque a lotação, que causa a impossibilidade de qualquer movimento, não permitia que trocasse de lugar com a possível gestante.
Cinco décimos: a metade.
Tirei os fones e assim fiquei, pedindo socorro para chegar logo e fingindo não ver a barriga que quase roçava meu nariz.
Quatro...
... três décimos.
Nem a tortura, nem a censura, nem o irmão do Henfil ou as lágrimas de Marias e Clarisses. Nada naquele momento me fez sentir tanta ojeriza pela classe militar. Nada me fez odiar tanto, naquele espaço de tempo, a infeliz idéia, de um infeliz regime, de construir um infeliz campus universitário distante de tudo. Brilhante criação para evitar revoltas estudantis. Os revoltados, agora, são os estudantes do século vinte e um, que precisam chegar à fronteira com a cidade vizinha às sete e meia da manhã. E eu, chegar viva pro almoço.
Dois
Eu sofria. Por mim e por ela. Sim, porque ela sofria. Se ali havia um bebê ou uma melancia não importava. Ela sofria, eu sei. A música já não me salvava de qualquer murmuro dos censores passageiros. A minha chance seria ela saltar do coletivo antes de mim, mas nada. A do material que estava comigo desceu, ela não. Bendita suposta grávida!
Um
Mais alguns metros e uma parte da outra avenida. Esquivei-me para deixar o lugar. A menina se apoderou do banco com uma visível felicidade. Estávamos sãs e salvas. Ela, no banco azul. Eu, em casa e cheia de culpa. Devia ter perguntado o que ela tinha na barriga...
