segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Psicologia Espelhar

Eu disse “ai tiiio!”, e ele me fitou como se a pecadora fosse eu. Mas meu ato impulsivo de juntar o papelzinho devidamente compactado (para que a sujeira parecesse menor) não foi só pensando nos meus netos. Na verdade, creio que sequer pensei. Só fiz. Porque, combinemos, não há que pensar diante de um papel voador cujo destino não é a lata verde. Há que agir!

Passada minha vontade de dizer barbaridades ao grosso vovô careca, então, sim, eu pensei. Pensei na desfaçatez humana sob aquela figura a quem palavra “respeito” – sem falar em “lixeira” – parece inexistir. Reconhecem-se as pessoas pela origem de seu lixo. Traduz-se “lixo no chão = desrespeito”. Sem falsa demagogia, carrego o meu até visar a lata. E garanto, não é difícil.


O tio me olhou de revesgueio até virar a esquina como se nada entendesse. Creio que não entendia (acreditem! algumas pessoas têm tremenda dificuldade de captar o óbvio). Talvez tenha esperado em vão que eu me rebaixasse ao nível do seu ato e gritasse um palavrão horroroso. Mas meu bom exemplo se estendeu até aí.

Até senti um breve orgulho de minha pessoa. Mas meu lado anjinho da consciência sussurrou que nada mais fiz que minha obrigação de gente consciente.

É simples. Funciona assim: respeite. Não dói.


A Caixa

Metódica, repete incansavelmente aquele velho ritual pré-sono. A garrafa metade vazia, metade cheia de água. O som toca o mesmo disco, cujas músicas foram sistematicamente colocadas uma após a outra num ritmo inversamente proporcional à sonolência. Os livros. A persiana baixa aos quatro dedos de tocar a janela. O despertador ligado para... quarenta e cinco minutos precedentes à saída. Vinte para estender o sono, vinte e cinco para os ritos matutinos.

Tudo em ordem.

O livro, periodicamente substituído sob a luz do abajur, é quase bíblico. Cerca de dez páginas por noite, às vezes mais. Depende do grau de assimilação. Comumente, na página cinco – às vezes antes – quando aquele mesmo disco toca aquele trecho da música que precisa ser cantada, os ouvidos monopolizam o setor sensorial e os olhos fogem às frases de Kafka, Márquez, Pessoa, ou seja lá o que esteja em suas mãos.

Os olhos inquietos então olham em torno enquanto a boca arrisca um inglês um tanto distinto ao que os ouvidos escutam. E, numa dessas peregrinações da visão, depara-se com o que as palavras que outrora lera lhe fizeram esquecer.

Ela está ali, em meio às semelhantes, e parece ter a ingenuidade de suas cores. Teria, não fossem as lágrimas que já causou, pensa.

Nunca lembra do que almoçou ou da última página que leu, mas se recorda como disponibilizou cada item naquele retângulo quase quadrado. Tudo deveria estar perfeito para ali não mais estar dias depois. E ali continua há meses. Sabe que dali só sairão para uma sacola preta levada semanalmente para longe.

Talvez fosse mais fácil se a quase quadrada não lhe parecesse tão útil. E tão bonita... Seria fácil fechar os olhos e manda-la junto a tudo na sacola preta.

Mas continua a olhar. Repetidamente, olhar. E, repetidamente, ela sabe que a dor de abri-la é maior que a de vê-la. Disseram-lhe, certa vez, que sofre mais quem o faz com vagar. Mas lhe teme a idéia de que tudo vá tão rápido como veio.

Pensa que melhor lhe convém deixar a caixa fechada, tudo fechado. Volta às cinco páginas. Dorme. Ela. A caixa.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

A vida quer passar

Diz-se que, quanto mais tempo preenchido, mais tempo preenche nossos dias. É como um ciclo vicioso incessante aos maníacos por tempo preenchido, aos que depressivos quando do ócio. Preguiça entra em nosso vocabulário quando paramos e... não tenho o que fazer! é o que pensamos. Então o corpo amolece como naqueles dias abafados de cidades úmidas e, enfim, nos damos, não porque queremos, minutos de descanso. Mas o tique-taque do relógio é incansável, o tempo não pára e nós, os non-stop, sabemos disso.

É bom ter feitos diários. É bom não ter intervalo de acesso, entre pensamentos úteis, para os pensamentos fúteis. É bom aproveitar dias, horas, minutos, segundos!, porque 'vai que não dá tempo pra fazer tudo!'. A vida é quase invisível aos olhos, tão rápido passa. Os segundos, afinal, foram feitos para serem sugados até o fim, ingeridos com vontade, mas a conta-gotas, para que demorem a cessar.

A pressa de viver é quase uma doença. As vítimas dessa obsessão têm o relógio como o principal inimigo da vida. Parece-lhes que, para viver, deve-se correr contra o tempo. O ideal seria quebrar todos os relógios e esquecer que as rugas estão se formando não tão lentamente, que as pernas um dia não suportarão caminhadas longas, que as pessoas não ficarão pra sempre, que temos fim. Infelizmente, esses são os pensamentos que recheiam aqueles raros momentos de ócio.

A vida quer passar e tentamos inutilmente bloquear seu caminho. Esticamos um pouco aqui, outro acolá. Dormimos hoje dez minutos mais tarde, já que dez minutos rendem mais dez palavras bonitas, mais cinco páginas daquele livro, mais dois assuntos entre amigos... mais um momento. Vivemos essa vida, já que a próxima é dúvida, e a eternidade, uma tentativa vã.


De Clarisse Lispector:

Eu sou antes, eu sou sempre, eu sou nunca. À duração da minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Eu nasci na época errada

Apercebi-me do erro épico cometido pelo destino quando ouvia, em certa exposição histórica, certo balaio de músicas e notícias anos 60-70. Ouvia aquilo com sorriso de criança, com o ar de alguém cuja felicidade foi encontrada no mais suposto disparate. Alguém que descobriu que esteve sempre no lugar errado, e enfim encontrou seu lugar. Mas tão logo minha alegria infantil se transformou num saudosismo senil. Voltei a minha época física quando, com dificuldade, levantei daquela cadeira cujo desenho arremetia a minha então descoberta época espiritual. Tudo e todos me pareceram demasiado incomuns, demasiado atuais.

Ouvindo vozes roucas e suaves, transportei-me por alguns instantes à vida universitária de meus pais, quando pensava-se duas vezes (até três) no que deixaria de ser apenas pensamento para ser fala. Os estudantes gritavam e cantavam para criticar. Os ídolos eram Chico Buarque e Beatles, e não... deixa pra lá. Eu queria, por alguns instantes mais, ouvir os reis do iê-iê-iê e, ali mesmo mexer os pés e os ombros como fazem meus pais e como nós, que não vivemos Beatles, achamos ridículo. Por muito pouco, não me deixei levar pelas músicas de protesto e não saí gritando "diretas já" no meio daquela gente.

Eu acredito em outras vidas, talvez acredite porque queira crer que vivi o que nessa vida não vivi. Ainda não sei onde nem quando passei meus anos de glória, se em 20, 30, 40, se dancei o Charleston ou a dança dos meus pais. Eu queria, também, ter sido hippie e ter-me vestido à paz-e-amor, embora o “amor livre” e a marijuana não me seduzam. Os mais variados trechos da história me aliciam insistentemente. Talvez tenha vivido todos. Talvez deva fazer regressão.

Se minha alma não se apossou de outros corpos, nasci na época errada. Vivo como se tivesse assistido às partidas de Pelé e à viagem de Gagarin. Eu vejo e ouço como uma conservadora. Eu rejeito valores e a moda séculovinteum. Tenho espírito velho sob essa carcaça que insistiu em nascer na era dos computadores e do funk.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Bovarysmo

Tenho o mau costume dos idealizadores. Desde o alvor da minha infância, fui levada pelos livros de história aos mundos mais longínquos da imaginação. Imagino uma terra lindamente arquitetada a meu bel-prazer. Concebo as situações a minha vontade e pessoas a meu gosto, embora esteja sempre próxima do abismo da desilusão.

Súbito, vejo-me imaginando histórias. Predicados, objetos, ou o simples sujeito sem complemento causam-me estranhas sensações, e me pego criando narrativas completas. Pessoas que nunca vi são para mim aquilo que imagino que sejam, e nada mais. Sei as causas e os fins, mesmo que sequer tenha vivenciado os meios. Sei o pretérito e o futuro no meu mundo.

Quando pequena, queria que tudo fosse do meu jeito. E meu mundo wanna be era primoroso. Tudo exato e colorido. Todos diziam 'bons dias' e 'boas noites'. Todas as palavras eram belas. Não havia abóbora nem a cor roxa. Não existia dinheiro, pois era ele o causador de todo o abjeto. Eu seria eternamente criança e meus pais, eternos.
Quando um pouco menos verde, com a cabeça no travesseiro eu vivia uma linda história de amor com direito a cavalo branco. Eu viajava e tinha amigos até do Japão. Eu sabia mais que o refrão de Águas de Março e entendia o 2001 de Kubrick. Eu tinha lido todos os livros e acreditava em todas as pessoas, porque mesmo os políticos eram confiáveis. Conhecia-se a definição de respeito e pessoas eram mais relevantes que dinheiro. Não havia desentendimentos por convicção religiosa, política ou econômica. Nessa terra fantástica, eu entendia a mente humana...

Fui longe... e caí daquele abismo. Um dia me senti estrangeira, forasteira na minha própria criação. E tentei criar um mundo não tão distante, no qual se chegasse mais rápido. Tirei daqui e dali, facilitei a chegada, mas ali não restou muito além da minha busca pelo que preenche o nanana da música.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

"Bom dia, Senhor F..."

Descobri-me refém de mais uma peculiaridade, e me estou auto-terapizando(?). Uma daquelas dificuldadezinhas nas relações interpessoais que todos temos e escondemos de outrem e de nós mesmos. Mais eis que eu revelo a minha. Não tenho medo! Arcarei com as conseqüências. Meu problema é um tanto peculiar, diria, e sempre tive vergonha de revelá-lo, embora saiba que muitos já o perceberam. Agora, então, nota-lo-ão todos. Eu... bem... não consigo pronunciar nomes. É, assim mesmo, bem esdrúxulo.

Já costumava me enquadrar no grupo das pessoas levemente esquisitas pelos mais variados motivos, mas sempre me descobria não tão singular. Por mais que pensemos o contrário, há sempre alguém que compartilha conosco a angústia de uma peculiaridade. Como falar com um portador de óculos escuros. NÃO CON-SI-GO! Minha mente altamente desconfiada imagina os mais variados lugares para os quais meu interlocutor estará olhando. Imagino que ele não me olha. Sei que ele não me olha!(!!!) Enfim, fiquei neurótica. Mas, ao menos aí, descobri não ser única.

Bem, voltando aos nomes, minha boca só os articula quando de certo grau de intimidade. Não que não saia um “ei, Fulano!”. Até aí consigo, mas só porque um “ei, psiu!” é por demais estranho. Já quando o diálogo parte para o “Oi, F...”, “Bom dia, C...”, “Obrigada, Senhor B...”, a coisa fica feia, e o bichinho da esquisitice me cutuca. Vejo a facilidade com que todos o fazem, e sinto-me ainda mais freqüentadora da seção dos excêntricos.

Quem dirá os apelidos! Ai céus! Apelidos pertencem ao grupo das mais extremas intimidades interpessoais. Eu não sei chamar por apelidos, assim como o fazem aquelas pessoas altamente carinhosas e queridinhas que nem passam pela fase do nome, vão direto ao apelido. Fico indignada com pseudoconhecidos que proferem meu apelido assim, logo de cara. Quem pensam que são? Critico-as. Invejo-as.

Eu gostaria, francamente, de falar nomes. Mesmo porque, nomes são muito bonitos e merecem ser pronunciados. Eu gosto deles por demais, não pense que não. Vou pedir, rezar pro papai do céu que me conceda tal privilégio. E se ele não me ouvir? Se não souber que lhe falo? Afinal, não sei pronunciar nomes...

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O dia mítico

Eis o dia do aniversário. O dia mítico. O meu dia mítico. O meu dia.

Dias de aniversário deveriam ser só nossos. Nossos feriados. Penso que esse é um dia só meu no qual só eu sou especial. Seu melhor amigo pode estar de aniversário no seu dia. Não importa. Esse dia é seu. Azar o dele que tentou roubá-lo de você.

Queria ter mais dias míticos por ano. Mas, quem sabe?, eles não seriam tão especiais. Para mim, aniversários são como bolinhos de chuva. São feitos uma vez por ano, e isso faz deles tão especiais e aguardados.

Um viva ao dia mítico e aos bolinhos de chuva! Agora, (ambos) só no ano que vem...