terça-feira, 23 de setembro de 2008

Contos de Primavera

Há alguns anos, quando eu não imaginava que existia algo além de uma terra longínqua chamada Porto Alegre, eu acreditava que flores caiam do céu. Assim mesmo. Flores pequeninas, bonitas como gérberas e rosas, caíam girando como uma roda de carroça a partir do dia 21 de setembro. Vinha daí meu encanto pela primavera.

Se me perguntassem minha estação preferida, eu não balbuciava. Não pensava nos ventos fortes, na chuva, no resquícios de frio dos setembros. Só pensava nas flores que cairiam sem parar.

Não sei por que, por tanto tempo, em acreditei nisso. Afinal, ano após ano, setembro após setembro, via tantas flores como neve caírem na minha cabeça naquele país tropical.

Quiçá uma analogia inconsciente ao despertar da vida, à renovação dos ares. Quiçá inocência. Qualquer hipótese que fosse, a perdi. Mas não quando percebi que as flores não caiam, e sim quando descobri em quão feia algumas pessoas transformaram minha ilusão.

Quando descobri que existia Buenos Aires, pensei que minhas constatações infantis estavam certas. Aqui, a entrada da primavera coincide com o Dia do Estudante e é uma data celebrada. Era o dia mais esperado por mim desde que cheguei, porque muitos bonaerenses entraram num acordo cruel e me narraram como são lindas as primeiras horas da estação nos parques da cidade. As pessoas dão flores às outras e sorriem. Os estudantes se reúnem e festejam esse dia em que são liberados das aulas. Foi assim que me iludiram.

De fato se reúnem. Mas para transformar primavera em inverno (ou inferno). Nos belos bosques de Palermo se vê muita gente, que abre as mãos para soltar lixo, e não para dar flores. Os jovens não sorriem, mas riem. Riem uns dos outros. Gritam. Correm.

E as flores, definitivamente, não caem do céu.

A primavera aqui é feia.

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Quando tento antecipar a entrada da primavera, ainda carregando minha ilusão, e me sento no Jardim Botânico da cidade, um moço se dirige a mim. Estende na minha frente um longo pedaço de arame e começa a enroscar. Cara de argentino não tem. O arame lhe denuncia.

Hola. Voy a hacerte una estrella porque las estrellas tienen luz propia — entrega-me o arame que se esforça em parecer uma estrela. — Y ahora te mostro mi trabajo y então si te gustar alguno te cuento un cuento.

O sotaque e os erros também. Sim, é brasileiro. Brasileiro que enrosca arame, faz-los brincos e vende. Esse, ainda encena e narra um conto se eu comprar sua arte.

Quero ouvi-lo.

Agora, ao contrário de antes, é o português que tropeça no espanhol. Estou mais atenta à forma da fala que ao conteúdo. E fala como um brasileiro que entorta arame na beira da praia.

Uma terra onde duendes e fadas fazem festas nas quais tudo é mais ou menos a trindade sexo, drogas e rock’n’roll. Então, um urso aparece — porque, afinal, ursos têm relações profundas com fadas – e lhes faz chá de cogumelos. Nessas comemorações não só pela primavera, as fadas se portam muito mal. E, embora isso tudo seja tão metafórico quanto as flores que caem do céu, fez mal às minhas ilusões primaveris.

— Agora você tem que me prometer uma coisa — diz o carioca. — que vai se portar muito mal. Mas isso, só se for pra passar bem.

Hã?

Óquei. É melhor concordar antes que meu saco de ilusões se esvazie por completo.

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A primavera aqui é feia. E desilude.

E, para contrariar Quintana, nada disso tem-me causado uma extraordinária sensação de alívio.

sábado, 30 de agosto de 2008

“Saudade é um clichê”...

... eu disse pro Samir.

Assim, me dei conta de que não escrevo porque meus pensamentos são agora clichês. Porque tudo o que penso é saudade.

O Samir contestou que não. Que saudade é sentimento. Sentimento clichê, porque todo mundo tem, afinal. Coisa clichê é coisa que todo mundo tem, que todo mundo sente, que todo mundo diz.

Bom, ao menos falantes losófonos são clichês, os únicos que sentem saudade nessa superfície tão grande e tão propensa ao sentimento. Os outros sentem falta, eu disse. O que nem de perto é o mesmo.

“E tu, sente o quê?”. Eu sinto saudade. Saudade grande, daquela bem brasileira. Porque, embora eu já confunda um pouco as língua ibéricas, em espanhol palavra nenhuma consegue traduzir o que sinto.

E, sim. Pra que tudo faça sentido, esse texto é clichê. Afinal, eu sinto saudade.


... e foi assim:

Luana diz:
só penso clichês ultimamente

Luana diz:
q coisa horrível

Luana diz:
o q eu faço?

Samir diz:
ai luana, tbm não há drama

Samir diz:
a vida nao deixa de ser um grande clichê

Luana diz:
não é drama

Luana diz:
é q to pensando em como começar a matéria

Luana diz:
só penso clichês

Luana diz:
não atualizo o blog pq só penso clichês

Luana diz:
acho q é a saudade d casa

Luana diz:
saudade é clichê

Samir diz:
ahahaha

Samir diz:
saudade é sentimento

Luana diz:
sentimento clichê

Luana diz:
pq todo mundo tem

Luana diz:
e isso dá texto

Samir diz:
mas só brasileiro sabe falar direito!

Luana diz:
só brasileiro sente saudade

Samir diz:
ohhh

Samir diz:
q amor

Luana diz:
é... falta e saudade não é a mesma coisa

Samir diz:
nao mesmo

Samir diz:
tu sente o que?

Luana diz:
saudade, ué

Luana diz:
sou brasileira

Luana diz:
embora já confunda um pouco o português com o espanhol

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Amanhecendo em Buenos Aires

O sol apareceu, embora eu só o tenha visto horas depois.

Quando desembarco na rua pela porta bordô da Calle Constitución, os pés parecem tocar num oceano gélido e o corpo adentra aquilo que se sabe ser dia, mas que ainda não amanheceu. São sete da manhã. E me vou melancólida, fria e com frio.

Quando enfim amanheceu, e meu corpo estava dentro de salas aquecidas artificialmente da Universidade, o sol pôs-se lá fora. Descobri que não era forte concorrente ao frio do inverno, mas, embora não aquecesse tanto o corpo, esquentou surpreendentemente a alma. Porque o sol tem dessas coisas, me parece. Um incrível sei-lá-o-quê que merece odes e devoções.

Durante, pelo menos, 16 dias, o sol deve ter somado não mais que ligeiras horas de exibição. E eu, contrariando a lógica de quem faz as escolhas que fiz, somei não mais que alguns poucos minutos de exaltação. Aquela vontade talvez se tenha misturado à saudade e ao medo e me senti, por 16 dias, um dia fechado. Sem sol.

Quando senti sob o pé a superfície mais quente e o dia passou a ser, enfim, dia, comecei a recuperar o fôlego. Começar já é um bom começo, afinal. A respiração se aquietou enquanto o corpo fez o exato inverso, embora eu tenha demorado a perceber.

O relógio biológico desajustado me fez ficar em casa no primeiro sol da minha nova vida. Mas aqui dentro está tudo bem. Tenho sol na minha janela e parece estar tudo mais claro.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Pequeno Tributo à Esperança

Hoje o dia nasceu mais triste pra mim. Peço desculpas àqueles que há tempos me pedem novos escritos e esperam notícias de uma aventura em terras portenhas. Mas eu hoje acordei triste.

Há anos quase incontáveis, quando Buenos Aires sequer pensava em acolher-me, nasceu Esperança. Com ela, também nasceram admiradores. Novas vidas que brotaram a partir de novos pensamentos. Uma perfeita mistura de idéias revolucionárias e sentimentos conservadores. Porque Esperança era, até a manhã de hoje, sinônimo de vanguarda, de alegria e de brilhantismo. Quem conheceu Esperança Keil Fuentefria, há-de sempre recordar qualidades.

Mesmo com as adversidades da vida – que lhe foram muitas – não perdeu a alegria e a claridade da mente. Até a última semana de vida (quando a vi pela última vez) bem sabia o que queria e o que dizia, embora estivesse com o corpo magro ainda mais magro, e os olhos claros talvez mais cansados de viver. Não gostava de “gente velha”, e talvez isso lhe tenha salvado de envelhecer. Porque Esperança nunca foi velha, a despeito de seus cem anos.

Meu dia amanheceu triste porque descobri que não mais a farei feliz com o cartão postal que lhe enviaria, para lembrar-lhe das ruas portenhas de que tanto gostava. Fiquei triste porque não ouvirei suas incansáveis histórias e seus agradecimentos quase chorosos às visitas que recebia. Chorei por descobrir, assim por um baque, que as coisas boas não são eternas.

Ao mesmo tempo, fiquei feliz porque sei que ela se foi feliz, embora o que é Esperança tenha ficado e ficará sempre entre os que um dia a conheceram. Pois, como disse minha mãe para me consolar (já que não podia me abraçar), “ela cumpriu muito bem a sua missão e deixou em nós uma parte muito boa dela”.

Esperança. Hoje, nos dias em que essa palavra me é cada vez mais presente, sinto que não a perdi. Continuo a acreditar que é a última que se vai, embora ainda creia que seu corpo deveria ser imortal, que suas palavras deveriam ser eternamente ouvidas, que a Esperança centenária, assim como o sentimento homônimo, não deveria ter fim.

Portanto, só o que posso dizer aos amigos que esperam por notícias minhas é: nessa hora, eu queria estar em casa.

terça-feira, 24 de junho de 2008

O homem de muitas vidas

Como o Felipe Montero, que somente procurava por um emprego, acabou por fazer uma regressão involuntária à vida passada

O jovem historiador espalhava sua doutrina de antropólogo cético quando caiu-lhe por terra todas as suas crenças. Porque Felipe Montero, o mexicano que só queria largar as aulas que lecionava e se dedicar aos próprios escritos, deparou com seus escritos de outra vida. E que ele sequer conhecia. Do ceticismo a qualquer coisa que estrapole as barreiras humanas, depois de passar três dias no casarão da rua Donceles, Montero é agora a mais crente das criaturas. Crê em Deus, em espíritos e, sobretudo, em velhas senhoras.

Eram dez horas da manhã quando Montero se colocou em frente ao número 815 da Rua Donceles, no centro da Cidade do México; ali, onde pouco há além de palácios coloniais convertidos em oficinas, relojoarias, lojas de sapatos e lancherias. Prostrou-se ante o velho casarão por um anúncio de emprego, que lhe renderia quatro mil pesos mensais e um quarto cômodo.

Felipe Montero, embora fosse apenas um professor substituto em escolas particulares, foi bolsista na Universidade de Sorbonne, na França. Conta que leu o anúncio num jornal e, se não fosse cético naquela época, acreditaria — como hoje acredita — que fora tudo culpa do destino. Que aquele periódico lhe caíra nas mãos não por acaso, assim como não por acaso tudo sucedeu.

Conheceu Dona Consuelo, uma velha senhora de idade inexata — e cuja existência alguns vizinhos também desconheciam até a misteriosa história protagonizada pelo jovem historiador vir à tona. Ele descreve a todos que o rodeiam aquela que, pelas suas contas, já passara do centésimo aniversário: “um corpo raquítico e um cabelo muito branco que escondiam-se entre as cobertas”. Foi assim que a viu pela primeira vez naquela manhã em que resolveu ir em busca do emprego e assim a veria durante três dias.

Montero garante que foram mais que suas qualidades profissionais que impressionaram a anfitriã. Demorou a descobrir, no entanto, que segredo guardava aquela contratação inesperada que lhe exigia que permanecesse no casarão enquanto traduzia antigos escritos em francês. Dona Consuelo queria que a obra do marido, morto havia sessenta anos, fosse acabada e publicada como uma biografia póstuma, e assim o fez o mexicano acostumado a exumar papéis amarelados pelo tempo.

Nunca mais voltou para casa. Somente saiu do casarão na quinta-feira que se passou. Confessa que, a princípio, lhe assustavam os ares abatidos do lugar. Demorou a se habituar à falta de luz, às portas de via-vém em todos os cômodos e aos rins ao molho que lhe serviam nas refeições.

Enquanto estudava o francês um tanto deficiente do general Llorente, Montero conviveu com Consuelo, a quem só via enterrada sobre as cobertas, e a sobrinha, cuja existência ninguém jamais teve conhecimento, exceto ele. “Chamava-se Aura e contava vinte e poucos anos. Linda e sempre de verde. Mas tinha a impressão de que em tudo era muito parecida com a tia, até mesmo nos movimentos”, declara o jovem, que desacreditava também no amor até conhecer as duas mulheres.

Ele conta que Aura, assim como ele próprio, nunca saía de casa e obedecia incondicionalmente a tia. Somente o que a senhora lhe dissesse e fizesse parecia permitido à jovem. E, assim como ela, Montero decidiu-se por suportar, calado, as manias da decana, que não dispunha de outro assunto que não fosse o marido morto. Mesmo quando passaram a se relacionar amorosamente, por mais que Montero insistisse, a moça não aceitava fugir com ele. “Dizia não poder. Hoje, entendo que foi melhor assim”, desabafa Montero.

A obra do general Llorente a princípio não lhe revelara nenhuma novidade. Tratava de suas expedições, viagens pelo mundo, nada que já não pertencesse ao vasto universo de conhecimento do historiador. Nos últimos cadernos, no entanto, os escritos lhe revelaram excentricidades da esposa, como as ervas medicinais que cultivava no diminuto pátio sombrio.

Porém o jovem historiador precisou tão somente de uma imagem para ter suas crenças e costumes transformados para sempre. Apenas uma fotografia, onde viu retratados, em áureos tempos, a jovem Consuelo Llorente e... ele, Felipe Montero. Ali, onde deveria estar ele, o general. Mas, afinal, quem era quem? “Afinal, somos o mesmo”, desvenda Montero, a quem agora chamam louco.

Quando olhava as fotografias, lembrou-se dos gestos de Aura — sempre tão iguais aos da tia —, da submissão de Aura e das noites em que Aura lhe sussurrara na cama: “você é meu marido”. Aura, Aura, Aura. Sentiu o coração pulsar-lhe e o amor pela jovem confundir-se com o amor pela centenária; a adoração pelos textos do general embaraçar-se com a adoração pela própria obra.

Na época em que se recusava a aceitar qualquer crença, o jovem chamaria essa coleção de fatos de coincidência. Agora, não tem mais dúvidas de que a moça de verde nada mais era que o fruto do desejo da senhora Llorente em ter de novo o marido. Ou sua reencarnação, a qual, desde então, Montero contenta-se em ser.

O historiador, que outrora foi general, continua a escrever sua obra, a qual dará seqüência até a própria morte ou até a última encarnação. A casa úmida, onde pouco se enxerga além do próprio nariz, só foi adentrada por outras pessoas na última quinta-feira, quando Consuelo Llorente morreu. Foi quando, também pela primeira vez, a vizinhança da Rua Donceles viu as rugas centenárias da decana. Os comerciantes e os poucos frequentadores das lojas da região viram Montero chorar a morte da mullher que fora sua esposa. E nunca mais se soube de Aura. Somente foram encontradas, no pátio, as ervas medicinais bem conservadas.


* uma tentativa de transformar em new journalism o livro Aura, de Carlos Fuentes (que eu recomento... e que acabei de contar o final.)

sábado, 7 de junho de 2008

Severino e os Sapatos *

Severino contrariava a alcunha que lhe deram. A personalidade parecia abreviada nos olhos cor celeste, dados pela mesma mãe que escolheu chamar-lhe assim. Severino. Severo, lhe diziam. Preferia acreditar que lhe fora dado por razão do peixe homônimo, já que a genitora desconhecida que lhe havia registrado não lhe possibilitaria saber a razão. Nem se herdara os olhos dela ou do pai, também ignoto. Chegou naquela várzea distante quando muito pequeno. Tanto que não se lembrava. Vivia há muito tempo no lugar talvez esquecido pelo mesmo Deus a quem a mãe, mulata de olhos negros, fazia rezas.

Era um daqueles dias em que as nucas ferviam e sequer podiam ser salvas pelas sombras das poucas árvores. Pois as poucas árvores também tinham poucas folhas. A representação daquele mundo de pouco tudo, exceto pelo calor. O calor era a única coisa que se tinha de muito. Tudo queimava igual ao dia em que Severino tocara a mão no forno à lenha da mãe. Não por personalidade pirraça, já que tinha os olhos azuis. Somente por ser criança.

Tudo estava quente. Mas a areia que lhe tocava os pés não ardia. Não ardia porque Severino estava já acostumado aos pés desnudos sobre a terra torrada.

Nunca usara sapatos. Na verdade, sequer já os vira. Não até aquela tarde escaldante — mais uma entre muitas, mas que lhe pareceu ainda mais abrasadora. Podia mostrar conhecer muito da vida áspera — embora limitada em tempo e espaço. Conhecia os tons daquela terra, os temperos da cozinha, a direção dos ventos e até as palavras mais grosseiras dos homens mais xucros. Sabia que amanhã choveria, pois estava quente. Mas não conhecia aniversário, Natal e sapatos. Não até aquela tarde.

Naquele universo vermelho e cansado, não havia lugar para o supérfluo. Ali só havia essência. E a essência não inclui sapatos.

Embora estivesse quente, Severino preferiu ficar na varanda, onde a madeira passada parecia aquecer ainda mais o mundo. Sobre os joelhos, os cotovelos. Sobre estes, as mãos, que seguravam uma cabeça cansada de estar. Estar ali, sem nada. Sem vontade. Sem sapato.

Neste dia veio um homem, coisa que ali nunca vinha. Um magro de cabelos cinzas e roupas de cidade. Com apenas um olhar lhe cumprimentou inutilmente, pois nessa hora Severino não via olhos. Via sapatos. Marrons brilhosos que contrastavam com o marrom fosco da madeira e que atravessaram a varanda que rangia como patos. Entrou pela porta que ainda mais gritava, e lá dentro a mãe o recebeu.

O garoto não se movia, tais como os olhos de cimento, que ofereciam sua atenção aos ouvidos curiosos. Inútil tentativa. Escutava tão somente murmúrios. O sol fez o desenho das sombras da varanda se derreterem, até que alcançaram a parede. Foi quando então ouviu a voz rija dizer:

— Severino.

Sabia seu nome o homem de cidade. O homem cinza de sapatos marrons. Um estranho naquele mundo vermelho.

E novamente ouviu:

— Severino.

Agora vindo da voz terna daquela mãe mulata. Agora um chamado.

Entrou com a curiosidade tímida que não lhe permitia correr. A timidez que também não deixou que ele falasse enquanto as bocas da mãe e do homem se revezavam. Foi assim que alguma das vozes — que já não poderia dizer qual — revelou-lhe que era aquele seu padrasto.

O pai morrera e a mãe casara-se novamente. O homem cinza que não tivera filhos encontrara na descoberta da existência de Severino um consolo. Um filho. A mãe lhe revelara onde deixara o embrulho choroso havia anos.

Severino tremeu. Soluçou de susto. Um soluço rápido que só serve para seguir-se de um alívio de prazer. Um deleite maior quando o menino da vista azul e pés rubros soube que o padrasto queria um herdeiro. Tinha aquilo que chamava negócio. Uma loja. “A casa das sombrinhas”. Não sabia o que eram sombrinhas sob aquele céu ingrato que não dá chuva. Mas não importava o nome, já que nem sempre nomes são fiéis. Severino dos olhos azuis sabia disso.

A loja vendia sapatos.

E Severino ver-se-ia, enfim, livre da vida severa e descalça.


* sim, Severino é meu avô, embora a história seja muito pouco fiel à verdadeira.

sábado, 31 de maio de 2008

Um Artesão de Idéias

Talvez ele não estivesse ali, naquele beco apertado do Menino Deus. Ali, onde vive entre toras de madeira. Talvez ele estivesse agora em Londres, como passagem marcada para amanhã a Madri. Lá, entre a madeira trabalhada nos violinos e pianos das grandes óperas. Mas Seu Flávio, o marceneiro da vila Guaranha, prefere não cogitar o destino de sua vida se, aos 60 anos, o cigarro não tivesse apagado sua voz.

José Flávio da Conceição, marceneiro de profissão e cantor de ópera de dias passados, passa agora os dias a riscar em grandes cartolinas. Os bonitos armários, mesas, cadeiras, ou seja lá o que as madames de toda a cidade encomendem, saem dos desenhos um tanto tortos e sem muita perspectiva do marceneiro mais famoso da região. Mas são as mãos do filho e do neto que colocam em prática as obras do patriarca. As pernas de Seu Flávio já não permitem tanto esforço. Por isso ele desenha. Passa as tardes a planejar nos papéis amassados, sobre a mesa irregular na oficina apertada, com a astúcia de quem estudou desenho – que agora faz com as mãos mais inseguras – no Instituto de Bellas Artes. Um olho aqui e outro ali, no neto, que não herdou o talento vocal do avô. “Fala mais alto, guri!”. E resmunga: “Os guris de hoje não projetam mais a voz”.

Seu Flávio projeta a voz, agora já um pouco rouca, ainda como nos tempos de cantor. Faz questão de falar para ser ouvido. Pelos outros e por ele, que precisa espichar o corpo e pedir que os outros repitam. Mas se diz humilde, só fala o que deve. “Não tenho a vaidade de dizer o que eu sei. Vou dizer o que eu sei quando tu me perguntar”. É difícil imaginar que o homem de 77 anos, de sobrancelhas rudes e pés ásperos, já brilhou nos palcos mais aplaudidos do mundo. Que as mãos machucadas pela serragem já flutuaram no ritmo da música clássica. No lugar das roupas surradas e da boina, quase do tom cinza dos cabelos, já esteve uma indumentária de barítono-tenor. “Sou um dos quatro únicos no mundo que alcançam esses dois tons. Vou do Sol ao Dó num segundo”. Mas, hoje, os 37% de ar que retém, graças a um enfisema pulmonar, não deixam que ele respire o ar necessário para fazer uma cadeira, quanto menos para fazer um espetáculo.

Um dia, quando cantava na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, “faz uns 50 anos”, foi convidado para cantar na Inglaterra. “Mas lá não é como aqui. Ninguém pára para dar informação, ainda mais pra mim que não sabia uma palavra de inglês”. Conheceu a terra da rainha, a Espanha, a Itália, e mais um tanto de países que nem lembra. Dos irmãos latino-americanos, só contemplou de passagem o Paraguai, para onde foi comprar uma tevê. Mas nem sem palco deixou de cantar. E, assim como lhe acontece seguidamente nos bares do Menino Deus, foi convidado a soltar a voz num bar. Num espanhol convincente agradou com “Anahí... las arpas dolientes hoy lloran arpegios que son para ti. Recuerdan acaso tu inmensa bravura, reina guaraní”. Fala um bom espanhol e canta em italiano, mas não substitui a boa música brasileira. “Eu sou muito verde e amarelo. Gosto é de cantar o hino nacional da música brasileira”, e cantarola, distraído, Aquarela do Brasil.

Mas foi no Brasil que perdeu a chance de sua vida: um contrato com o Teatro Scala de Milão. Era o prêmio do concurso “Voz de Ouro”. Na etapa do Rio de Janeiro, a música escolhida para agradar foi Rio, Caminho de Ouro. “Eles me adoraram!”. E venceu. Na final em Porto Alegre, um copo de água gelada pela manhã, que o impossibilitou de cantar, foi o suficiente para dar o primeiro lugar ao hoje famoso tenor Nino Valsani. “Se eu tivesse cantado, seria uma das maiores vozes desse país. Porque hoje em dia só tem porcaria, e eu to aqui sentado vendo essa porcaria”, resmunga, analisando a cantora Alcione no Domingão do Faustão, que “tem uma boa caixa de som, mas só canta porcaria”.

Confessa que a vida de cantor seria mais descansada, porque dependeria só dele mesmo. Mas, com uma felicidade de gente simples, garante não se arrepender de nada. “É uma carreira muito difícil a de cantor. Eu era jovem, bonito e muito assediado. Acho que sou mais feliz assim”. Mesmo porque, se quisesse, poderia ter voltado a cantar. Diz saber limpar o pulmão com óleo de capivara, mas ele fica muito frágil, sem resistência. Por isso, preferiu não seguir o exemplo de um amigo, que usou e morreu pneumonia no primeiro frio do inverno.

Adora ser marceneiro. Parece divertir-se tanto com música quanto com madeira, a qual calcula com o cuidado de um compositor para não perder nenhum centímetro no corte. “Sou um pesquisador da profissão, faço coisas inéditas. Faço um guarda-roupas de 30 portas sem dobradiças e que nunca entra cupim”. Mostra, orgulhoso, o invento desenhado na grande cartolina, cujo projeto nunca foi comprado por nenhuma loja, já que é uma peça quase interminável, “dura uns 200 anos”. Por isso ele mesmo, com um financiamento, vai investir na produção e venda do invento. Fará propaganda própria, garante, assim como já faz para vender às madames. A propaganda do trabalho de Seu Flávio é feita mesmo no boca-a-boca.

Seu conhecimento sobre a química da madeira, tão importante para a descoberta da imunização aos cupins, não vem de família, mas da época em que fez remédios. Assumiu o cargo quando o costume de beber derrubou o titular, farmacêutico de profissão formado na Alemanha. Como assistente, Seu Flávio conhecia todas as receitas e começou a fazer os remédios. Mas, embora bêbado, o farmacêutico nada tinha de burro, e sempre escondia alguns segredos de boticário. O resultado foram remédios voltando em larga escala e a quase-falência da farmácia, que foi obrigada a recontratar o alcoólatra.

O apartamento de três quartos de Seu Flávio é de uma beleza simplória. Logo na entrada, a porta de desenhos curvos e bem lixados não deixam dúvidas quanto à profissão do proprietário. Uma sala onde não cabe muito mais que dois sofás, uma mesa, também feita por ele, e uma estante. Sobre esta, fotos de crianças. Nenhuma delas de seus netos. Com Dona Eva, segunda esposa, não tem nenhum. “Mas somos protegidos por Cosme e Damião”, ela diz. As crianças estão sempre na casa. Filhas de vizinhos, filhas de amigos, filhas de ex-namoradas do filho. Seu Flávio não parece tão empolgado quanto a mulher quando se fala em filhos. Com ela, teve dois; com outra, dez, dos quais resultaram seus vinte e sete netos.

Os netos nunca deram problemas. O que trabalha na marcenaria tem dezessete anos. Os filhos estudaram; alguns, na universidade federal. Todos trabalham. Somente aquele a quem Seu Flávio deu o próprio nome parece não ser o seu orgulho. João Flávio trabalha com o pai. Converteu-se à Igreja Evangélica e agora diz que é filho de Deus, não mais de Seu Flávio. A marcenaria, onde antes cabiam armários e mobílias de todo o tipo, agora se resume a uma pequena ilha em meio a madeiras e lixo. Uma parte do teto, João arrancou para secar roupas. Em dias de vento e chuva, o local sofre com o dilúvio. E Seu Flávio, com o enfisema. Quando o pai ficou no hospital durante alguns meses, o filho abarrotou o local para esconder as máquinas e não perder a herança. Herança que daria ao novo pai: o pastor da igreja. Quando Seu Flávio teve alta, foi ameaçado de morte pelo filho. “Disse que ele não se atrevesse comigo, que eu cortava a garganta dele”, diz o dedo em riste e a cara de pai que dá a lição. Mas, como pai, também amolece. “Eu tenho é pena dele”.

Seu Flávio é ateu. “Eu só acredito no que eu vejo. É um atentado a minha inteligência”. A candura de menino e a dureza que os anos lhe deram lhe conferem um ar de controvérsia. Ama ou odeia as pessoas. Não tem meio termo. “As pessoas são boas, viu? Não sei se fui eu que plantei coisas boas e acabei encontrando só coisas boas”, é o que diz quando narra acontecimentos que diz guardar como “relíquias”, como o da mulher que o levou ao pronto-socorro quando seu pulmão teve mais uma recaída no meio da rua. A bem-feitora deu o número de seu telefone agregado ao 9090, para que ele ligasse a cobrar e ela o fosse buscar. Sempre que lhe falta ar na rua, um anjo lhe carrega para o hospital. Da Brigada Militar, localizada ao lado da vila, ele já perdeu as contas de quantas caronas ganhou. Mas quando o assunto é trabalho, gente ruim há aos montes. Tem quem já o tenha tentado roubar, quem não quisesse pagar, quem quisesse passá-lo para trás. Um deles, Seu Flávio ameaçou de morte. Muitos outros, já xingou sem pudores. “As pessoas têm que ser corretas comigo, senão, passo-lhe o laço. As únicas pessoas descentes são eu e o Velho João, um preto que vendia madeira”. Súbito, desune as sobrancelhas severas e solta uma lágrima que percorre a ruga alinhada abaixo do olho. Somente em outro momento solta lágrimas como para o Velho João. É quando recita a própria poesia – uma de muitas:

Um sábio me dizia que essa existência
Não vale a angústia de viver
Homens, eis o que somos neste mundo
Uma célula orgânica que aparece

Cresce, vibra e se dissolve num segundo

Eis a vida

Assim falou-me um sábio

E pela primeira vez eu comecei a ver

Dentro da própria morte

O encanto de morrer


“Agora vem a parte mais linda, o final”. É quando a lágrima enfim cai:


Uma mulher falou-me
Feche os olhos, meu amigo

E sonhe

Com uma doce companheira

Que muito a queiras

E que também te queira

Cortinas muito brancas na vidraça

Um passarinho que canta na gaiola

Que vida linda lá por dentro rola

Assim falou-me uma mulher

E pela primeira vez eu comecei a ver

Dentro da própria vida

O encanto de viver.


“É muito linda”, suspira.

Quando canta ou declama, mantém os olhos fixos no seu interlocutor. Parece exigir atenção. Nesse momento, esquece-se do ar que falta, das rabugices, de tudo em volta. É como se fizesse aquilo pela primeira vez, com um brilho de criança contente nos olhos. “Por que ele não é sempre assim?”, pergunta Dona Eva, acostumada a correr de um lado a outro da casa atrás do nebolizador que a salvará dos resmungos sufocantes do marido. Depois de quase meia hora com o tubo verde sobre o nariz e a boca, no entanto, já é mais sorridente e falante. É muito falante. “Ele não pára. Tá sempre falando, falando, falando”, ri Dona Eva.

Há alguns meses, Seu Flávio foi mandado pelos médicos para a psicóloga do hospital. Por quê? “Para encobrir a incapacidade deles, só pode!”. Dona Eva explica. É que o marido, já famoso no Hospital de Clínicas pela cantoria e pelos saraus poéticos em meio aos corredores, não conta para os médicos o que faz em casa. “Baixa o exu nele e ele quebra o nebolizador. Isso sem falar que vive esquecendo os remédios. Por isso, a doutora Marli quer que eu vá sempre junto para contar o que ele faz. É muito medonho. Me enlouquece. Por isso que eu digo que vou morrer antes dele”. Ele ri como criança travessa e acaricia a cabeça da mulher, com quem é casado há 36 anos.

Fora o pulmão, as pernas e o ouvido, tudo parece funcionar como se ainda tivesse os 50 anos da foto sobre a estante. Um filhote de onça se debruça sobre um Seu Flávio forte e bonitão, que lhe dá leite com uma mamadeira em algum lugar do Maranhão. Em casa, depois da meia hora inalando o soro fisiológico, ele parece voltar à forma e corre de uma peça à outra. Tudo parece funcionar. Na rua, se agarra com dificuldade às grades. “Mas se ele vê uma mulher, já melhora”, Dona Eva implica. Ele olha a tevê e finge não ouvir. Certa vez, quando, acompanhado da mulher, passava mal em frente ao Clínicas, uma vendedora de água não dispensou uma cantada ao setentão. Dona Eva nem liga, e ainda ri. “Se ela quiser tirar uma casquinha, pode”. Ele olha a tevê e finge não ouvir.

Seu Flávio parece não se arrepender de nada. Nem do copo de água gelada, nem do filho rebelde-evangélico. Mas os gestos firmes, o olhar firme, as mãos firmes e decididas, tornam-se instáveis quando fala do cigarro. Este sim, que o faz se agarrar em grades e sofrer em dias úmidos. O secretário da saúde do município, uma de suas muitas influências no mundo político, convidou-o para dar palestras contra o cigarro em colégios, já que ele falaria com conhecimento de causa. Como tudo o que faz, levou a sério a proposta e, com a responsabilidade de marceneiro que entrega encomendas na data, escreveu um monólogo para apresentar, mas o projeto nunca saiu do papel. “O prefeito não tem interesse nisso. Não daria uma boa propaganda”.

Da época de candidato a vereador em Viamão guardou amizades políticas. Da época de ascensorista, a cumplicidade de Leonel Brizola. Foi convidado por Lupicínio Rodrigues a cantar em São Paulo. Procópio Ferreira esqueceu de escrever o poema, e mandou o amigo Flávio em seu lugar. Tem amigos em todos os cantos. Conversa com todos, sem qualquer preconceito. No ônibus, pede licença e já inicia um diálogo. Faz questão de ressaltar seu diferencial. “Me comunico com as pessoas, por isso elas são legais comigo”.

As carreiras de cantor, ator, poeta, pai, avô, farmacêutico, político e marceneiro sempre foram levadas com responsabilidade. Se tem uma coisa de que ele se orgulha, é de ser responsável. Diz ter muita dedicação e respeito pelas pessoas. “Se a pessoa não vive pra servir, não serve pra viver” é o seu lema. Sabe que é daí que vem o grande respeito que lhe conferem desde o Lupicínio até o Luciano, um ajudante com problemas mentais, “mas de bom coração”. Orgulha-se disso mais que da voz de barítono-tenor. Por isso, prefere estar ali, entre a madeira bruta na vila Guaranha.